A doença renal crônica em pacientes com diabetes tipo 2 segue como uma das maiores causas globais de progressão para diálise. Embora os estudos tenham demonstrado proteção renal com os análogos dos receptores GLP-1, os mecanismos renais diretos permaneciam pouco claros. O estudo **REMODEL**, apresentado no ASN 2025, fornece pela primeira vez uma avaliação das vias fitiopatológicas mais profundas, integrando ressônancia renal funcional, biópsia seriada e transcriptômi
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📚 **Referência**: Tuttle KR et al. Mechanistic Effects of Semaglutide on Kidney Disease in Type 2 Diabetes: The REMODEL Trial. Apresentado no Kidney Week 2025 \[**[link](https://sciencehub.novonordisk.com/congresses/asn2025/tuttle.html)**]
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###### **Design e população**
• Ensaio randomizado, 52 semanas, semaglutida 1,0 mg vs placebo.
• 106 participantes com DM2 + DRC (TFGe 30–75 mL/min/1,73 m²) e albuminúria 20–5000 mg/g.
• Subgrupo de 33 pacientes realizou biópsias renais pareadas.
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###### **O que o estudo mostrou?**
Redução de gordura renal
A ressonância magnética renal mostrou reduções marcantes:
• –25% de gordura perirrenal
• –13% de gordura do seio renal
Esse achado reforça o conceito emergente de “doença renal gordurosa”, sugerindo que a semaglutida modula o ambiente metabólico intrarrenal.
Provocação: Seria a causa de DRC naqueles pacientes obesos sem etiologia aparente?

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###### **Melhora hemodinâmica renal**
• Redução significativa no renal arterial resistive index (RARI) → melhora da resistência vascular renal.
o ETR 0.96, p = 0.008.
o Semaglutida não piorou a difusão cortical (ADC), sugerindo estabilização da fibrose.
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###### **Albuminúria e função renal**
• Redução de 40% na RAC (ETR 0.60; p=0.008).
• TFGe estabilizada, com tendência favorável (\~+3 mL/min/1,73m²).
Indicando melhora do manejo glomerular da pressão e do fluxo, compatível com redução de hiperfiltração mal adaptativa.

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###### **E as análises de Transcriptômica das biópsias?**
O snRNAseq revelou que a semaglutida age diretamente no endotélio glomerular, o verdadeiro “campo de batalha” da DRC diabética:
• 63% dos genes de estresse metabólico down-regulated
• 60% dos genes fibro-inflamatórios reduzidos
As células mais responsivas foram as endoteliais glomerulares, sugerindo um eixo de proteção microvascular como mecanismo central.
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###### **Marcadores clínicos**
Como esperado:
• HbA1c ↓ 0,9%
• Peso ↓ 4,5 kg
• PA sistólica ↓ \~4 mmHg (não significativo, mas consistente)
O ponto importante: as melhorias renais persistem após ajuste para HbA1c e peso, reforçando que não são apenas efeitos metabólicos sistêmicos.
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###### **🧠 Interpretação fisiopatológica integrada**
O REMODEL demonstra que a semaglutida:
• reduz gordura intrarrenal/perirrenal
• melhora hemodinâmica glomerular
• reduz inflamação e estresse endotelial
• estabiliza fibrose
• reduz albuminúria e preserva TFG
A combinação desses efeitos restaura a função microvascular renal, principal alvo da lesão diabética.
Pela primeira vez, um AR-GLP-1 mostra evidências diretas de reprogramação endotelial glomerular em humanos.
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O que isso muda na prática?
Semaglutida não apenas reduz peso, glicemia e PA — ela altera o ambiente vascular renal de forma direta, compatível com seu papel como terapia cardiorrenal para pacientes com DM2 + DRC.